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Quarta-feira, Maio 27, 2009

 
Arrumar o quarto é uma coisa curiosa. Às vezes nos deparamos com estranhos e sinceros relatos sobre o primeiro emprego...

"Hoje me deram esse envelope em branco aqui no escritório e eu fiquei com saudade dos Correios. Resolvi escrever para você. Mas fiquei imaginando o que eu poderia escrever de interessante, afinal a minha vida não está e nem é um tesão cheio de reviravoltas e acontecimentos. Atualmente eu estou sentada em uma mesa de vidro onde eu sempre analiso meus tênis sujos, atendo a telefonemas de quando em quando e desenho a vida habitual pra tentar fazer esse tempo daqui de dentro menos insuportável. E eu não estou falando sobre o tempo dentro de mim, e sim dentro dessa sala claustrofóbica, onde as pessoas passam, jogam algumas responsabilidades pessoais em cima de mim ("desmarca meu dentista", "descobre o preço da caçamba", "vai me comprar cigarros e coca-cola", "pergunta pra minha mãe se ela vai querer macarrão de janta") e eu cumpro, porque é pra isso que me pagam, embora eu tenha o título de recepcionista. Mas não houve cláusula contratual e nem um papelzinho que me diz o que eu faço exatamente pra eu assinar na frente do "x". Eu só sentei na mesa e descobri o que é trabalhar. Não que isso seja, porque eu me sinto meio pilantra arrancando 500 contos mais benefícios pra fazer coisas tão bestas, mas bem, eles que querem gastar esse dinheiro nessa função, é um problema deles.

O fato é que eu me sinto frustrada em fazer essas coisas no meu dia a dia, embora eu saiba perfeitamente que não faria coisa muito mais produtiva do que eu faço aqui por conta da minha falta de força de vontade. A verdade é que, se eu pudesse mesmo, eu passaria a tarde comendo doces na frente do computador, sairia vez ou outra pra ir ao banheiro e talvez veria um filme, e à noite eu encontraria o meu amigo mais livre em termos de responsabilidades e compromissos. Não dormiria em casa, me drogaria com alguma coisa relaxante e faria sexo pra cacete. Não é uma fantasia nobre, verdade, é talvez uma vida rasa, vazia e parasita sob algumas perspectivas, mas a vida só tem mesmo o sentido que impomos a ela, então não faria tanta diferença se eu tivesse renda e pessoas fizessem as outras coisas por mim. Mas esse é apenas o meu lado sinceramente ocioso e burro, então não leve tão a sério, eu não sou tão nojenta assim. :) "

posted by Mari.  # 7:26 PM 1 comments links to this post

Terça-feira, Maio 26, 2009

 
Virada Cultural, 2 de Maio de 2009, 22h27.

"Em meio a uma escadaria lotada de pessoas das mais diversas, uma garota está parada e já desistiu de checar o celular a procura da companhia, agora só espera. As músicas, pessoas e cores distraem e tudo parece sorrir quando se olha. Ela tira do bolso um maço de cigarros e acende um, fazendo poses entre fumante mafioso e cowboy, quase sem perceber. É uma garota estranha.

Ao lado dela está um homem alto, branco, com traços leves e masculinos, cabelos curtos, limpos e penteados debaixo de uma boina militar preta. Tem sobrancelhas grossas e claras, nariz reto e longo, maxilar forte, maçãs do rosto saltadas e brilhantes olhos verdes. Um rosto daquele tipo que não se vê há séculos. Usa um coturno e uma jaqueta que esconde no bolso interno seus cigarros de filtro vermelho. Ele pega um em determinado momento e encarecidamente pede o isqueiro vermelho da moça emprestado. Ela sorri e cede. Ele acende o cigarro com habilidade desnecessária e fuma como um vigilante da Gestapo entediado fumaria. A cena é um momento clássico capturado em uma fotografia velha, só que com cores, movimento e em frente ao Theatro Municipal.

Inicia-se uma conversa amena. Ela pergunta indiscretamente que tipo de segurança ele está fazendo ou porque se veste daquele jeito. Ele conta da palestra integralista em que pretende estar em quarenta minutos, fala sobre conceitos de Deus, Pátria e Família e critica as pessoas que estão pelo evento fumando maconha e bebendo. A menina segura, se recordando brevemente, a paranga que está largada no bolso das calças. Concorda com a cabeça enquanto dá outro longo trago no cigarro e olha o movimento da rua distraidamente.

Então, avista pessoas conhecidas ao longe, logo depois de toques insistentes no celular. Ele lhe dá um folheto com poemas de Plínio Salgado e Câmara Cascudo e a elogia, falando de como as mulheres brasileiras são realmente mais bonitas que outras mulheres. Ela sorri de soslaio, termina o cigarro, desce um degrau e bate continência para o rapaz, correndo até a calçada e, depois de cumprimentar os amigos, bebe no gargalo o vinho mais vagabundo e imoral que existe."

posted by Mari.  # 3:32 PM 0 comments links to this post
 
Oi, após longo período de preguiça, auto-sabotagem, falhas humanamente aceitáveis e procrastinação consciente, voltei para tentar deixar isso aqui mais visitável. Ou torço por isso com todas as minhas forças.

posted by Mari.  # 2:52 PM 1 comments links to this post

Terça-feira, Dezembro 30, 2008

 

'Nonovo.

Olá, fiéis leitores! Esse ano foi uma merda e eu espero que os deuses tenham piedade da minha miserável condição humana mandando-me um ano cheio de sucessos ou pelo menos boas ilusões. :)

Sabe como é... eu não quero me enganar. Se as coisas forem superficialmente boas, que sejam! Um ano cheio de lições aprendidas é útil (ou sinceramente espero - tiro a prova no decorrer dos dias), mas a felicidade fugaz é tão necessária quanto o desengano do tombo por pensar que o tropeço falhou em te derrubar, fazendo um bom trabalho logo depois.

Mas, não se precipitem, porque eu não quero voltar pra tempos mais felizes (ou mais ignorantes). Eu quero provar pra alguém ou pra todo mundo que não precisa ser uma constante tortura fracassada ou um caminho sem volta pro enforcamento, esquecimento ou cessão às malditas regras. Deve ter uma cor. TEM que ter uma cor, cacete!

2009 vai ser meu primeiro ano de adulto.

Útil e colorido ano novo pra vocês, na medida do possível.

posted by Mari.  # 3:15 AM 0 comments links to this post

Quinta-feira, Novembro 13, 2008

 
Wikipédia me passará no vestibular.

Sem mais.

posted by Mari.  # 9:37 PM 1 comments links to this post

Quinta-feira, Outubro 30, 2008

 

(As Sete Faces do Dr. Lao, Charles G. Finney)

"- Dr. Lao?
- Pois não?
- Onde fica a barraca de Pã?
- Não temos Pã nesse circo, minha senhora. Com certeza está se referindo ao sátiro que participou de nosso desfile esta manhã. Ele está naquela tenda ali. O ingresso custa dez centavos. Se deseja vê-lo, pague a mim aqui mesmo e pode entrar. Estamos com falta de bilheteiros no momento.

Agnes entregou duas moedas ao chinês e, assegurando-se que era uma moça calma e inteligente, entrou na barraca para ver o sátiro.

Ele estava se coçando numas videiras, com a barba rala e em tufos toda suja de borra de vinho. Os cascos tinham manchas de esterco e suas mãos eram ossudas, ásperas e nodosas; tinham uma cor pardacenta, eram grossas e de unhas longas. Entre os chifres havia um ponto pelado, cercado por pêlos encaracolados e cinzentos. Suas orelhas eram afiladas, e músculos magros e finos corriam por seus braços. O pêlo de bode ocultava os músculos da parna. Suas costelas apareciam sob a pele e os ombros erguiam-se até as orelhas.

O sátiro sorriu para Agnes, pegou a flauta e começou a tocar. Uma música fina e delicada de juncos dançou no ar denso da tenda escura. O sátiro levantou-se e dançou, ao som da música que ele próprio tocava, a cauda de bode sacudindo-se bruscamente, retesando-se, abanando. Seus pés dançavam uma jiga, com os cascos batendo um contra o outro e marcando o compasso, golpeando o chão sujo, tinindo, estalando, retinindo. O bodum tornou-se mais ativo.

Agnes ficou onde estava, assegurando a si própria ser uma moça calma e inteligente. O sátiro saltava ao redor dela, agitando a flauta, meneando a cabeça contorcendo os quadris, sacudindo os cotovelos. A flauta soava, cantava. A porta da barraca fechou-se. Em volta de Agnes galopava o idoso homem-cabra. Os pipilos da flauta guinchavam em seus ouvidos, como o bimbalhar de minúsculas sinetas, provocando nela um nervosismo que a sacudia e fazia seu sangue latejar. Com as veias intrumescidas pelo sangue em disparada, ela tremia como as ninfas gregas haviam tremido com o mesmo sátiro, 20 séculos mais jovem, havia dançado e tocado para elas. Agnes estremecia e olhava. E a flauta silvava, assoviava, sibilava.

O sátiro aproximou-se dela, dançando, roçando com as pontas dos cotovelos seus belos braços nus, tocando-lhe os vestido com as coxas hirsutas. Pequenos sacos de almíscar atrás dos seus chifres incharam e se abriram, exalando um denso odor oleoso - o prelúdio do cio. A criatura pisou no pé de Agnes com um casco; a dor fez com que lágrimas rolassem pelos olhos dela. O sátiro beliscou-lhe a coxa, enquanto continuava sua dança. Doeu, mas Agnes descobriu que a dor e lubricidade eram sensações afins. O cheiro que se desprendia era enlouquecedor. A barraca recendia a almíscar. Agnes sabia que estava suando, que gotas de suor escorriam de suas axilas e umideciam sua blusa. Sabia que as suas pernas estavam brilhando de suor. O sátiro continuava a bailar de pernas tensas ao redor dela, seu peito ossudo subindo e baixando com o sopro incessante. Saltou sobre pernas duras; atirou a flauta num canto distante; e então investiu contra Agnes, que se sentiu ceder, cair, desfalecer - para ela o mundo girava cada vez mais vagarosamente, a gravidade enfraquecia, a vida começava."

posted by Mari.  # 1:14 PM 1 comments links to this post

Quarta-feira, Outubro 22, 2008

 

Top 11

As onze melhores canções para se ouvir quando estiver irreversivelmente desiludido.

1- Burn of the Midnight Lamp – Jimi Hendrix
2-
Mojo Pin – Jeff Buckley
3- To Forgive – Smashing Pumpkins
4- Good Woman – Cat Power
5-
De Mais Ninguém – Marisa Monte
6-
Harvest Moon – Neil Young
7-
Wake Up Alone – Amy Winehouse
8-
Comin’ Back to Me – Jefferson Airplane
9-
Pictures of You – The Cure
10-
Goin’ to Acapulco – Bob Dylan
11- Heart in a Cage – The Strokes


posted by Mari.  # 2:27 AM 1 comments links to this post

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